O que a entrada do Neymar na Copa pode ensinar sobre o uso de telas na infância
- Evandro Kafka
- 6 de jul.
- 4 min de leitura

A eliminação do Brasil para a Noruega gerou inúmeras discussões. Houve quem culpasse o técnico, quem criticasse a postura da equipe e quem apontasse erros individuais. No entanto, uma cena específica chamou minha atenção. Quando o placar ainda estava em 0 a 0, Neymar entrou em campo cercado por uma expectativa enorme. A sensação era de que bastava sua presença para mudar completamente o rumo da partida. Durante alguns minutos, parecia que toda a responsabilidade de vencer havia sido colocada sobre um único jogador. O restante da equipe continuava em campo, mas, para muitos torcedores, a esperança tinha nome e sobrenome.
O jogo, porém, seguiu outro caminho. O Brasil sofreu dois gols, o ambiente ficou mais tenso, houve discussões dentro de campo e, nos minutos finais, Neymar marcou um gol que pouco alterou o destino da partida. Não se trata de dizer que a derrota aconteceu por causa dele ou que sua entrada foi um erro. O ponto interessante é perceber como, muitas vezes, depositamos toda a expectativa de resolver um problema complexo em uma única solução rápida, acreditando que ela será capaz de mudar completamente o resultado.
Enquanto assistia à partida, pensei em quantas vezes fazemos exatamente isso na educação dos nossos filhos.
Quando uma criança começa a ficar irritada em um restaurante, reclama durante uma viagem, demonstra tédio em casa ou simplesmente não consegue esperar alguns minutos, os pais normalmente tentam diferentes estratégias. Conversam, propõem uma brincadeira, oferecem um desenho para colorir, chamam a atenção para alguma coisa interessante ao redor, tentam negociar e incentivar a criança a lidar com aquela situação. Mas, quando nenhuma dessas alternativas parece funcionar e o cansaço dos adultos também começa a aparecer, entra em campo aquele recurso que quase nunca falha: o celular.
A tela passa a ocupar exatamente o mesmo papel que muitos esperavam do Neymar naquela partida. Ela entra para resolver imediatamente um problema que parecia não ter solução. E, de fato, resolve. O choro diminui, a reclamação desaparece, a criança fica em silêncio e os adultos conseguem terminar a refeição ou continuar a viagem em paz. A sensação é de alívio, porque, naquele momento, o problema realmente deixou de existir.
O que nem sempre percebemos é que existe uma grande diferença entre resolver uma situação e desenvolver uma habilidade. Quando a tela elimina instantaneamente o desconforto, a criança deixa de experimentar justamente aquilo que seu cérebro precisava aprender a enfrentar. Ela não pratica a espera, não exercita a paciência, não busca alternativas para lidar com o tédio e nem descobre que é capaz de criar uma brincadeira usando apenas a própria imaginação. Aos poucos, seu cérebro aprende que sempre existe uma solução pronta para qualquer emoção desagradável.
Esse aprendizado pode parecer inofensivo quando acontece uma única vez, mas ganha força quando se transforma em padrão. Se toda situação difícil termina da mesma forma, a criança deixa de desenvolver recursos internos para lidar com o mundo. Em vez de construir criatividade, autonomia e tolerância à frustração, ela aprende que basta esperar alguns minutos até que alguém coloque o "salvador" em campo.
É justamente por isso que o tédio merece ser visto de outra maneira. Aqueles minutos em que a criança reclama que não tem nada para fazer costumam ser o início de um processo importante. Depois de algum tempo, ela inventa uma brincadeira, observa o ambiente, faz perguntas, cria histórias ou começa a construir alguma coisa. É desse espaço vazio que nasce boa parte da criatividade. Quando interrompemos esse processo imediatamente com uma tela, acabamos impedindo que essas habilidades tenham a oportunidade de aparecer.
Isso não significa que celulares e tablets não possam fazer parte da infância. A tecnologia é uma ferramenta extraordinária quando utilizada com intenção e equilíbrio. O problema começa quando ela deixa de ser uma ferramenta e passa a ser a resposta automática para qualquer dificuldade. Assim como nenhum time deveria depender exclusivamente de um único jogador para vencer uma Copa do Mundo, nenhuma criança deveria depender sempre da mesma solução para enfrentar o tédio, a espera ou a frustração.
Na RobotBox acreditamos que o desenvolvimento acontece justamente nos momentos em que a criança precisa pensar, testar, errar e tentar novamente. Quando uma engrenagem não encaixa de primeira, quando um circuito não funciona na primeira tentativa ou quando um projeto exige alguns minutos extras de concentração, ela está desenvolvendo muito mais do que habilidades manuais. Está aprendendo que nem todo problema possui uma solução instantânea e que muitas das maiores conquistas surgem depois de insistir mais um pouco.
Talvez essa seja a maior reflexão que aquela partida nos deixou. O erro não está em ter um grande jogador capaz de decidir momentos importantes. O erro acontece quando acreditamos que existe apenas uma solução para qualquer problema. Na infância, sempre que colocamos a tela para entrar em campo antes que a criatividade, a imaginação, a autonomia e a persistência tenham a chance de jogar, podemos até resolver o desconforto daquele momento, mas também deixamos de treinar habilidades que acompanharão essa criança pelo resto da vida.



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