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Joguei mecaleao no WePlay. Se você é pai ou mãe, deveria fazer o mesmo.


No artigo anterior, apresentei uma reflexão sobre o crescimento do WePlay entre crianças e adolescentes e procurei mostrar como esse aplicativo se tornou mais um fenômeno impulsionado pelos algoritmos das redes sociais. Também chamei a atenção para um aspecto que considero importante: embora a estética do aplicativo seja claramente voltada ao público infantil, ele possui classificação indicativa para maiores de 18 anos nas principais lojas de aplicativos por oferecer recursos típicos de uma plataforma social.


Depois de publicar aquele texto, decidi fazer aquilo que considero essencial antes de emitir qualquer opinião sobre um produto digital: utilizá-lo.


Nos últimos anos tenho observado que muitos debates sobre tecnologia acabam sendo construídos apenas a partir de reportagens ou de relatos de terceiros. Quando falamos sobre infância, entretanto, acredito que essa abordagem é insuficiente. Pais, educadores e pesquisadores precisam conhecer os ambientes digitais que ocupam o tempo das crianças. Foi exatamente com esse objetivo que instalei o WePlay e passei algum tempo explorando suas funcionalidades.


A instalação ocorreu sem qualquer dificuldade. O aplicativo está disponível tanto na App Store quanto na Google Play e pode ser baixado normalmente. Durante essa pesquisa, porém, encontrei um comportamento que já havia observado em outros aplicativos voltados ao público jovem. Diversos influenciadores disponibilizam links para download fora das lojas oficiais, direcionando os usuários para instaladores de terceiros.


Esse detalhe merece atenção porque as lojas oficiais da Apple e do Google permitem que pais configurem restrições de idade para impedir que filhos instalem determinados aplicativos. Quando o download acontece por meios alternativos, essa camada de proteção pode deixar de existir. Além disso, incentivar crianças a instalar aplicativos fora das lojas oficiais contribui para normalizar uma prática que representa um risco importante para a segurança digital. Há anos especialistas alertam que aplicativos distribuídos por sites de terceiros são uma das formas utilizadas para disseminar versões adulteradas de softwares, capazes de coletar dados pessoais ou instalar códigos maliciosos nos dispositivos. Independentemente da intenção de quem divulga esses links, trata-se de um comportamento que não deveria ser incentivado entre crianças.


Após a instalação, iniciei o processo de cadastro. O aplicativo solicita nome e data de nascimento, mas durante minha experiência não encontrei nenhum mecanismo aparente de validação dessas informações. Também é possível criar uma conta utilizando endereço de e-mail, redes sociais ou apenas um número de telefone. Evidentemente, não tenho acesso aos mecanismos internos utilizados pela plataforma para gerenciamento de usuários, mas, do ponto de vista da experiência do usuário, uma criança consegue concluir o cadastro simplesmente informando uma data de nascimento diferente da real.


Esse aspecto ganha importância quando lembramos que o próprio aplicativo possui classificação para maiores de 18 anos. Em outras palavras, a barreira etária parece depender muito mais da honestidade do usuário ao preencher a data de nascimento do que de um processo efetivo de verificação.


O que mais chamou minha atenção, entretanto, foi a enorme discrepância entre a classificação indicativa e a linguagem visual utilizada pelo aplicativo.


Ao navegar pelos menus e pelos minijogos, encontrei cenários extremamente coloridos, personagens caricatos, elementos gráficos típicos de jogos infantis e uma interface construída para transmitir leveza e diversão. Um dos modos mais populares consiste em pintar o personagem para que ele se camufle no cenário, uma mecânica bastante semelhante às brincadeiras de esconde-esconde que conhecemos desde a infância. Não encontrei qualquer elemento visual que justificasse, por si só, uma classificação voltada exclusivamente ao público adulto.


Esse contraste me parece relevante porque pode induzir muitos responsáveis a interpretar o WePlay apenas como mais um jogo casual, quando, na realidade, sua principal característica não está nos minijogos, mas nas interações sociais que eles proporcionam.


Outro aspecto que merece reflexão é a estratégia de crescimento adotada pela plataforma. O aplicativo incentiva seus usuários a divulgarem o WePlay oferecendo recompensas e brindes. Entre os prêmios anunciados aparecem produtos como fones de ouvido e acessórios eletrônicos, itens bastante valorizados entre crianças e adolescentes. Sob a perspectiva do marketing, trata-se de uma estratégia comum de indicação. Sob a perspectiva da infância, entretanto, ela merece atenção, porque transforma os próprios usuários em promotores do aplicativo e amplia ainda mais sua circulação entre o público jovem.


Depois de concluir o cadastro, entrei em algumas salas públicas.

Foi nesse momento que encontrei aquilo que já esperava encontrar.


Diversas pessoas utilizavam o microfone simultaneamente. Era possível ouvir claramente vozes de crianças conversando entre si, enquanto, em outros momentos, também apareciam vozes adultas participando das mesmas salas. Essa dinâmica lembra discussões que já ocorreram anteriormente em torno de plataformas como Roblox, nas quais o principal desafio nunca esteve apenas nos jogos, mas na convivência entre usuários de diferentes idades em ambientes de difícil supervisão.


É importante deixar claro que a simples existência de conversas por voz não caracteriza um ambiente inseguro. O ponto central é outro. Quanto menor a capacidade de supervisão dos responsáveis e maior a diversidade de pessoas presentes na plataforma, maior também é a necessidade de discutir quais mecanismos efetivamente protegem crianças durante essas interações.


Do ponto de vista dos jogos, minha impressão foi de que eles não seriam capazes de manter o interesse da maioria dos adultos por muito tempo. As mecânicas são simples, repetitivas e relativamente superficiais. Entretanto, essa observação talvez seja pouco relevante, porque a proposta do WePlay não parece ser competir pela qualidade dos minijogos, mas pela capacidade de manter seus usuários conectados. O aplicativo utiliza praticamente todos os mecanismos de retenção já conhecidos pela indústria: recompensas por login diário, sistemas de progressão, personalização dos personagens, presentes virtuais, eventos temporários e desafios recorrentes. Quando essas estratégias são combinadas com recursos sociais, a permanência na plataforma deixa de depender apenas da qualidade do jogo e passa a ser sustentada pela própria dinâmica da comunidade.


Minha intenção ao compartilhar essa experiência não é demonizar um aplicativo específico. O WePlay provavelmente será substituído por outro fenômeno nos próximos meses, assim como ocorreu com diversas plataformas que dominaram a atenção infantil nos últimos anos. O ponto que considero mais importante é outro: pais e educadores precisam conhecer os ambientes digitais frequentados pelas crianças antes de formar qualquer opinião sobre eles.


Não basta perguntar quanto tempo uma criança passa diante da tela. É necessário compreender o que ela faz, com quem interage e quais mecanismos estão sendo utilizados para mantê-la naquele ambiente. Sem esse entendimento, qualquer debate sobre tecnologia e infância tende a permanecer superficial.

 
 
 

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