Seu filho não consegue mais brincar? O problema pode ser a dopamina barata
- Evandro Kafka
- 13 de jan.
- 3 min de leitura

Outro dia, uma mãe contou uma cena que parece simples, mas diz muito sobre a infância de hoje. Ela preparou tudo: mesa livre, brinquedos, papel, lápis, até separou um kit de montar. O filho sentou animado… por quatro minutos. Depois levantou e soltou, com a maior naturalidade do mundo:
— “Tô entediado. Posso pegar o celular?”
Ela ficou confusa. Porque, na cabeça dela, a pergunta era: “como assim você tá entediado se tem um monte de coisa aqui?”Mas, na cabeça da criança, o cérebro já tinha uma resposta pronta: “isso aqui é lento demais.” E é aqui que entra uma palavra que tem aparecido cada vez mais: dopamina. Calma. Não precisa virar um papo científico.
Pense na dopamina como o combustível do “quero mais”. Ela é um motor de motivação: faz a criança se interessar, insistir, explorar, descobrir. Só que existe um detalhe importante: esse motor pode ser treinado. E hoje, ele está sendo treinado para o atalho.
A tal da “dopamina barata” acontece quando o cérebro recebe recompensa rápida e intensa, com quase nenhum esforço. Um vídeo curto entrega emoção em segundos. Um jogo dá prêmio a cada fase. Um conteúdo puxa o próximo sem parar. O cérebro aprende muito rápido:
“Pra eu me sentir bem agora, basta um clique.”
O problema é que o mundo real não funciona assim.
Brincar de verdade exige tempo.Montar algo exige tentativa.Criar exige paciência.
Quando a criança se acostuma com recompensa imediata, o mundo real parece sem graça. Não porque ela perdeu a criatividade — mas porque o cérebro ficou acostumado com um nível de estímulo alto demais.
Aí começam a aparecer sinais que muitos pais reconhecem:
a criança não sustenta uma brincadeira por muito tempo;
troca de atividade o tempo todo;
fica irritada quando a tela acaba;
diz que “não tem nada pra fazer” mesmo com opções por perto;
parece sempre precisando de alguma coisa para preencher o vazio.
Em alguns casos, a tela vira quase um “controle remoto” do humor.
Mas tem uma boa notícia no meio disso tudo. Existe outro tipo de dopamina que é exatamente a dopamina que a infância precisa: a dopamina do esforço.
É a dopamina do “eu consegui!”.
Ela aparece quando a criança tenta, erra, ajusta, tenta de novo… e faz funcionar. E ela constrói algo que nenhuma tela entrega de verdade: autonomia, paciência, tolerância à frustração e autoestima real. O caminho, então, não é só “tirar tela”. É devolver para a criança experiências em que ela seja criadora, não consumidora. Experiências com mão na massa, curiosidade, desafio — e aquele momento mágico em que ela percebe que é capaz.
É por isso que atividades maker funcionam tão bem. Porque elas resgatam o prazer de construir, montar, testar e descobrir. E quando a criança encontra esse tipo de prazer, a tela deixa de ser a única fonte de recompensa. Ela vira só mais uma opção — como deveria ser.
E, pra entender por que isso está ficando tão comum, vale olhar também para o que o mercado está lançando. Em 2026, grandes marcas vêm apostando em brinquedos cada vez mais “reativos” — com luz, som e feedback constante — ao mesmo tempo em que criam linhas nostálgicas para adultos, mais estáticas e contemplativas.
Se você sente que seu filho está preso no estímulo rápido e com dificuldade de brincar de verdade, talvez o primeiro passo não seja uma guerra dentro de casa. Talvez seja oferecer um caminho novo:
menos consumo, mais criação.menos dopamina barata, mais dopamina do esforço.
E a infância agradece.



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