LEGO em 2026: brinquedos mais inteligentes… e crianças mais conectadas ao estímulo?
- Evandro Kafka
- 13 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 14 de jan.

Os lançamentos da LEGO em 2026 chegam fazendo barulho em três mundos ao mesmo tempo: games, cultura nerd e educação. De um lado, a marca apresenta a linha Smart Bricks, com peças “inteligentes” que oferecem efeitos de luz, som e respostas imediatas ao que a criança faz. Do outro, anuncia uma coleção que mexe com o coração de quem cresceu nos anos 90 e 2000: LEGO Pokémon, uma linha altamente nostálgica e, em muitos casos, mais contemplativa e “de exibição”.
O interessante não é só o produto em si. É a lógica por trás do lançamento. Porque essas duas linhas, juntas, mostram duas tendências muito claras do mercado:
brinquedos com cada vez mais estímulos para crianças, como se brincar “sem efeitos” não fosse suficiente;
produtos nostálgicos para adultos, mais estáticos, feitos para colecionar, decorar, reviver memórias.
E isso diz muito sobre o tipo de infância (e de consumo) que estamos construindo.
Smart Bricks: quando o brinquedo vira “sistema de recompensas”

A proposta dos Smart Bricks é simples e poderosa: um brinquedo físico que responde. A criança monta — e o brinquedo reage. Sons, luzes, efeitos, respostas. Uma experiência que lembra o ritmo dos games e do conteúdo digital: ação → retorno imediato.
E aqui entra um ponto delicado.
Quando o brinquedo faz questão de recompensar o tempo todo, ele ensina uma mensagem silenciosa:“brincar precisa ter estímulo constante.”
Isso pode parecer ótimo para engajar — e, sim, pode ser divertido. Mas também pode reforçar um padrão que já aparece dentro de casa: crianças que têm dificuldade de sustentar uma atividade “lenta”, que desistem rápido quando não há retorno imediato, que pulam de estímulo em estímulo.
O brinquedo, nesse cenário, não é só brinquedo. Ele vira um treinamento de expectativa.
Se tudo reage, tudo brilha, tudo responde… o que acontece quando a criança pega papel, lápis, madeira, peças simples, um projeto manual?
Muitas vezes, o que surge é exatamente isso:
“Tô entediado.”
Não porque não há nada para fazer — mas porque o cérebro já está acostumado com recompensas prontas.
LEGO Pokémon: a nostalgia como produto e o brinquedo como objeto

Agora, olhe para o outro lado do lançamento. LEGO Pokémon não nasce principalmente para “resolver o tédio” de crianças. Ela nasce para tocar um público que cresceu com o desejo de ter um Pokémon “de verdade”: o adulto que queria um Pikachu, um Charizard, um Eevee… e agora pode ter um — nem que seja na estante.
Por isso, essa linha tende a caminhar para o colecionável: construir, admirar, expor, lembrar. Em muitos casos, é um produto com estímulo mais baixo no uso contínuo. Você monta e… pronto. A recompensa é o resultado final e o significado emocional.
É quase o oposto do Smart Bricks:
para crianças: mais interação, mais resposta, mais estímulo;
para adultos: mais nostalgia, mais estética, mais contemplação.
E essa contradição é muito reveladora.
A pergunta que fica: por que o adulto merece silêncio e a criança não?
É curioso (e um pouco triste) perceber como o mercado parece dizer:
Para o adulto, entregamos um produto com “valor emocional”, quase meditativo.
Para a criança, entregamos um produto com “valor de engajamento”, quase acelerado.
Como se a infância não pudesse mais tolerar pausa.Como se brincar precisasse competir com o ritmo do celular.
E é aqui que a discussão fica séria: quando os brinquedos entram nessa corrida de estímulo, a infância vai perdendo um espaço essencial, o espaço do esforço, da tentativa, do tempo, do processo.
Brincar de verdade é “devagar” e isso é uma vantagem
Na RobotBox, a gente defende uma ideia simples: nem tudo precisa responder rápido.
Porque é no “tempo do processo” que nascem habilidades que a criança vai levar para a vida toda:
persistência;
foco;
autonomia;
criatividade real;
tolerância à frustração;
orgulho por conquistar algo com as próprias mãos.
A criança que monta, erra, ajusta e consegue não está só “passando o tempo”. Ela está construindo um cérebro mais preparado para o mundo real — um mundo que não dá recompensa a cada 15 segundos.
O futuro do brincar não é mais estímulo. É mais autoria.
A tecnologia pode ser incrível. Mas ela precisa ocupar o lugar certo: ferramenta, não “muleta de atenção”.
Talvez o grande diferencial, daqui pra frente, seja justamente oferecer algo que anda ficando raro:
brinquedos que não gritam por atenção;
atividades que não dependem de estímulo constante;
experiências em que a criança é autora, não espectadora.
Porque quando a criança encontra prazer em construir, ela não precisa de “dopamina barata” o tempo todo. Ela aprende a buscar algo mais valioso: a dopamina do esforço — aquela do “eu consegui!”.
Se esse tema te pegou, vale ler também nosso texto sobre o que está por trás do “tédio rápido” que muitas famílias vêm percebendo: dopamina barata e a dificuldade de brincar sem estímulo constante.



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