Chat, protestos e ódio online: o que o caso do Roblox revela sobre a exposição infantil
- Evandro Kafka
- 15 de jan.
- 4 min de leitura

Nos últimos dias, começou a circular pela internet uma cena que, à primeira vista, parece até engraçada: crianças se reunindo dentro de um jogo, levantando plaquinhas virtuais, “fazendo passeata” e gravando vídeos como se estivessem em um protesto de verdade. Mas, quando a gente olha com calma, dá para perceber que não tem nada de leve nessa história. O que apareceu como uma “treta do chat” é, na verdade, um retrato bem nítido de um problema maior: a exposição precoce das crianças no ambiente digital e como isso molda comportamento, emoções e até a forma como elas lidam com frustração.
A faísca da confusão foi uma mudança em recursos de conversa. Muita gente mais nova deixou de conseguir se comunicar como antes, e o assunto rapidamente virou um boato do tipo “acabaram com o chat”. Só que, para além de qualquer detalhe técnico ou de plataforma, a pergunta que realmente importa é outra: por que uma criança se sente tão desesperadamente dependente de comunicação constante dentro de um ambiente online? Por que a sensação de perder um canal de conversa vira, tão rapidamente, revolta?
Quando uma plataforma coloca barreiras, seja por verificação de idade ou por controles parentais, a intenção declarada normalmente é reduzir riscos. E é exatamente aí que a história fica reveladora. Para uma criança, a ideia de segurança nem sempre é clara. O que ela sente é “tiraram algo meu”. E essa percepção já diz muito. Mostra que, para muitas crianças, a internet deixou de ser um espaço eventual e passou a ser um espaço essencial, quase como uma extensão da vida social. Não é só um lugar para jogar. É um lugar para estar. Para conversar. Para pertencer.
O problema é que pertencer, na infância, precisa de contorno. Precisa de mediação. Precisa de adulto por perto, não como fiscal, mas como referência. Porque existe uma diferença enorme entre brincar com amigos e estar disponível para interações aleatórias, imprevisíveis e, muitas vezes, com pessoas que a criança nem conhece. A infância não foi feita para lidar com esse tipo de exposição e a gente vê isso quando aparece o primeiro limite. O limite vira uma afronta. A frustração vira fúria. A conversa vira briga.
E, no meio desse cenário, aconteceu algo ainda mais preocupante. O nome do youtuber Felca entrou na conversa. Felca é conhecido por fazer vídeos críticos sobre comportamento na internet e por apontar riscos que envolvem crianças em ambientes digitais. Só que uma parte do público, principalmente infantil, transformou isso em uma narrativa completamente distorcida, como se ele fosse responsável pela mudança. Como se uma plataforma com milhões de usuários tomasse decisões porque um criador de conteúdo mandou.
O resultado foi surreal. Crianças passaram a atacar uma pessoa real. Apareceram comentários agressivos, xingamentos, ameaças e tentativas de cancelamento. E aqui a gente precisa ser muito direto: discurso de ódio vindo de crianças é algo completamente absurdo. Não é coisa de criança. Não é brincadeira. Não é fofo. É sinal de que alguma coisa muito séria está sendo aprendida, ou pior, está sendo normalizada.
Porque esse tipo de comportamento não nasce do nada. Ele é treinado. Ele é repetido. Ele é reforçado por ambientes onde gritar mais alto ganha atenção, onde humilhar vira linguagem comum e onde a raiva é tratada como entretenimento. Uma criança que reage com ataque quando é contrariada está sendo educada, aos poucos, para acreditar que agressividade é uma ferramenta legítima de solução. E isso, para a vida adulta, é um caminho perigoso.
É aqui que a discussão deixa de ser sobre um chat e passa a ser sobre infância. Crianças não têm repertório emocional para lidar sozinhas com a dinâmica das redes, com a velocidade das polêmicas, com a pressão de estar sempre online e com o efeito manada. Quando falta mediação, elas não aprendem a pausar. Não aprendem a investigar. Não aprendem a separar frustração de injustiça. E, sem esse aprendizado, o impulso vira regra.
Na RobotBox, a gente fala muito sobre tecnologia na essência. E, para nós, isso não é só sobre componentes, circuitos ou engenhocas. É sobre colocar a criança em contato com experiências que desenvolvem autonomia de verdade, aquela que vem do fazer com as mãos, do testar, do errar, do tentar de novo. Na robótica desplugada, a frustração existe. Só que ela é saudável. Ela é concreta. Ela é acompanhada. Ela ensina paciência, persistência, cooperação e responsabilidade. Ela não joga a criança num mar de estímulos onde qualquer desconforto vira raiva, e a raiva vira ataque.
Nada disso significa que a internet precisa ser demonizada. Mas significa que a infância precisa ser protegida. Debater regras e mudanças é válido. Reclamar é normal. Ter opinião faz parte. O que não dá para normalizar, em hipótese alguma, é uma cultura em que crianças aprendem que a resposta para um limite é odiar alguém, ameaçar alguém, atacar alguém.
Talvez a pergunta mais importante desse episódio não seja quem tirou o chat, nem quem está certo. A pergunta é: onde está a mediação adulta? Onde está a conversa que ensina que internet tem consequência, que pessoas reais sentem, que frustração não dá direito de ferir o outro? Porque, se uma criança está ameaçando alguém online, o problema não é o alvo do ataque. O problema é o caminho que levou essa criança a achar isso normal.
E é justamente por isso que vale prestar atenção nessa história. Ela não é um detalhe passageiro de uma plataforma. Ela é um alerta, bem alto, sobre como estamos empurrando crianças para dentro de ambientes digitais sem o preparo emocional necessário e sobre o preço que a gente paga quando a infância vira território sem contorno.
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